quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Análise: Menina de Ouro (Million Dollar Baby, 2004)



Ficha Técnica:
Menina de Ouro / Million Dollar Baby (2004)
Duração: 132 minutos
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Paul Haggis
Elenco: Clint Eastwood, Hilary Swank, Morgan Freemn, Jay Baruchel, Margo Martindale
Oscars que ganhou: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Atriz (Hilary Swank), Melhor Ator Coadjuvante (Morgan Freeman)


É dífícil fazer um filme sobre um tema e em 90% do tempo o filme estar "disfarçado", não sendo em quase nada sobre aquilo que parece. Menina de Ouro supostamente é um filme de boxe, tanto que aproximadamente três quartos dele se passam dentro de uma academia ou em ringues espalhados pelo mundo. No entanto, o contexto em que o filme se encaixa é bem diferente do que aparenta.



A trama mostra Maggie (Hilary Swank), uma "caipira" americana que trabalha como garçonete e tem um sonho: ser lutadora de boxe. Tentando buscá-lo, ela passa a treinar em uma academia à procura de um treinador. Depois de muita insistência por parte de Maggie e uma ajudinha de Scrap (Morgan Freeman), o dono da academia, Frankie Dunn (Clint Eastwood), que inicialmente a rejeitou, acaba sucumbindo à insistência e aceita treiná-la.

Passamos então a acompanhar a evolução da menina, que, a princípio, mal consegue se entender com um saco de areia. É mostrada uma dedicação absurda por parte dela, com a realização de vários treinos noturnos, alternando com o trabalho de garçonete. Posteriormente ela passa a derrotar as adversárias com extrema facilidade, chegando ao ponto de ser concorrente ao título mundial de boxe. E, após essa luta, o filme dá uma virada absurda, algo que me surpreendeu bastante.

Essa virada, aliada a alguns diálogos - principalmente do Scrap - é que me fizeram perceber que muito pouco do filme é realmente focado no boxe. Menina de Ouro tenta, de maneiras variadas, mostrar as dificuldades que a vida nos impõe. Danger (Jay Baruchel), por exemplo, é um aspirante a lutador que demonstra ter algum tipo de deficiência. Em um momento do filme, ele é surrado pelos próprios companheiros da academia, e, pela minha leitura, aquilo é um modo do diretor (o próprio Eastwood, no caso) demonstrar que, mesmo quando queremos muito alguma coisa, às vezes não servimos para aquilo. Ainda que posteriormente o mesmo personagem tenha um momento de esperança, o sentimento que a sua trajetória me causou foi o descrito. Frankie, por sua vez, mostra-se como um homem amargurado. Sabemos que ele teve algum tipo de atrito com sua filha no passado, e que isto ainda o atormenta. Por isso, ele trata seus boxeadores com extrema cautela, temendo colocá-los em lutas difíceis, por medo de cometer algum erro novamente.

A própria trajetória da Maggie é bem tortuosa. Ela vem de uma família pobre e que - considerando que há uma cena em que ela leva para casa um bife deixado por um cliente - provavelmente passa fome. Mas mesmo assim, ela não desiste do sonho. Mesmo sendo rejeitada, ela insiste, e prova que é possível alcançar aquilo que sonhamos. E mesmo quando conseguimos, sempre achamos pessoas e situações que tentam tirar o prazer da nossa conquista. No caso dela, a própria família se mostra como um obstáculo à sua felicidade, pois mesmo que ela tente agradá-los (sem ter obrigação nenhuma de fazê-lo), ainda é maltratada. E falando na família dela, cabe destacar a atuação de Margo Martindale, que interpreta sua mãe. Poucas vezes um personagem conseguiu me causar tanta repulsa tendo tão pouco tempo em tela.

E, falando nas atuações, essa foi a única parte que me deixou meio decepcionado. A atuação da Hilary Swank tem maior impacto na parte final do filme, mas o trabalho dela no restante da obra não apresenta nada fora do comum. Olhando para a lista das indicadas para o Oscar de Melhor Atriz daquele ano, creio que o prêmio estaria em melhores mãos se tivesse sido entregue a Catalina Sandino Montero, pelo excelente Maria Cheia de Graça (Maria Full Of Grace, 2004). Clint Eastwood, por sua vez, foi o que mais me surpreendeu negativamente. Talvez, por ter assistido Menina de Ouro depois de ter visto Gran Torino (2008), achei que o personagem interpretado por ele é praticamente uma cópia do mostrado naquele filme: um velho rabugento, ranzinza e preconceituoso que acaba mudando sua visão no decorrer da obra. As atuações que mais me agradaram foram a do Morgan Freeman, Jay Baruchel e a já citada Margo Martindale.

Esses deslizes, no entanto, não diminuem o êxito alcançado pelo diretor. Menina de Ouro é um filme que surpreende pelo seu final amargo e pela virada que tem em sua trama, transformando-o em muito mais do que um filme de boxe.



Trailer:



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